segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Da Criação do Universo


E Deus disse: que haja Luz.
E tudo mais quanto era Escuro transfigurou-se!
E nada mais de vazio haveria em tudo que era Silêncio...
Do Escuro - trevas – se fez o Espírito universal,
E tudo mais surgiu como se cingido,
E nada mais poderia ter clareza.

Nada.

Nascido do silêncio,
Ou cheio dele...
Eis todo aquele incrível e adverso
Universo.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O Ladrão e a Vendedora de Rosas

Peça de teatro composta pelo gato Drake Augustus.




Palco vazio. Penumbra. Um fio de luz marca a cena no canto direito.


Entra uma garota com um cesto cheio de rosas.

VENDEDORA DE FLORES: Oh, dia! Oh, vida! Será que é tão difícil ganhar a vida com ofício tão delicado? Por que me sobra este fardo, ter que vender flores tão frágeis durante inverno tão rigoroso?

Entra um homem, encapuzado, vestindo túnica cinza.


LADRÃO: Droga! Com mil demônios, onde foi que enterrei...
VENDEDORA DE FLORES: Com sua licença, senhor... Gostaria de comprar flores?
LADRÃO: Flores? Num inverno como este? Pra que diabos eu compraria flores... Num inverno como esse!?
VENDEDORA DE FLORES: Não sei, quem sabe para alegrar a casa... Ou dá-las para alguém...
LADRÃO: Bem, eu até poderia, mas no momento estou ocupado numa missão importante.
V.D.F. (abreviemos): De que se trata?
LADRÃO: De que importa?
V.D.F: Não seja rude. Curiosidade.
LADRÃO: Lamento informá-la de que se trata de uma missão secreta e de alto risco.
V.D.F.: Hmm... Eu bem preferia uma vida secreta e de alto risco a vender flores.
LADRÃO: Não diga bobagens. Você nem sabe do que se trata.
V.D.F.: Bem, eu poderia saber do que se trata caso você tivesse a consideração de me explicar. Na verdade, sei que sequer nos conhecemos, mas devo informá-lo que tenha uma prima que tem uma amiga que mora há umas dez quadras daqui, que uma vez contou para uma outra amiga dessa minha prima, na verdade não exatamente esta minha prima, mas uma outra que também mora há dez quadras daqui, mas para o lado norte, e não para o lado sul... Ou seria oeste? Sei que enquanto vendia estas flores...
LADRÃO: Inferno! Inferno! Você não para de falar! Estou ocupado!
V.D.F.: ... mas só para completar, enquanto esta minha amiga, que na verdade é amiga desta minha prima...
LADRÃO: Tudo bem! Já entendi. Quanto é pra me deixar em paz? Essa cesta toda?
V.D.F: Bom, a cesta toda custam-lhe apenas duas peças de prata, meu senhor.
LADRÃO: Tome esse saco de moedas. Aqui com certeza deve haver bem mais que isso. Agora vá e deixe que eu me concentre.
V.D.F.: Oh, meu bom senhor! Muito obrigada! Agora já posso voltar pra casa e certamente hoje não preciso encarar a surra que meu pai me dá todas as noites.
LADRÃO: Seu pai lhe dá uma surra todas as noites por não conseguir vender as flores?
V.D.F.: Na verdade, não. É que costumo chegar um pouco tarde sempre, sabe? Desde que não consigo controlar meu alcoolismo, fica sempre difícil voltar pra casa depois de um dia ruim de trabalho.
LADRÃO: Você é alcoólatra?
V.D.F.: Sim, na verdade, não é bem alcoolismo, é mais um vício simples por entorpecentes que adquiri quando precisei encarar o fato de minha mãe fugir para Havana com um maquinista. Se bem que não posso exatamente chamar de vício, faz uns 10 anos que uso esses entorpecentes todos os dias e nunca me viciei.
LADRÃO: Querida, vá se tratar. Você precisa se tratar. E eu preciso ir embora. Até nunca mais (sai).
V.D.F.: Mas vender flores faz parte do tratamento...

Fim.

Sem mais.

Escritos de Viagem No. 3

Andava pra lá e pra cá, insone, desesperado. Não sabia se a angústia o levara a caminhar através das trilhas que outrora o levavam ao Circo, ou se andava diante do cerco que mesmo criara para tentar conter a própria ansiedade.

De certo que andava meio triste, e mesmo que andasse do anoitecer até os primeiros raios da alvorada, só pra ver toda aquela cor retornar ao Mundo, não sabia exatamente se seria por vontade própria, ou apenas fruto de suas andanças. Anseio por viagem.

E é fato que andou pensando em desistir de segurar as rédeas.

Mas o mundo anda tão complicado...

Dos Males do Ser Humano VI: Um Silêncio

Um silêncio se deu, de súbito.










Um abrupto momento em que o sol deixou de se refletir na água que ele tanto admirava. Era isto mesmo; água e fogo. O som... E o silêncio. E o Circo Imaginário era tudo o que se queria que fosse.




O entardecer da felicidade.




E a alma que acorda tarde, vestida de liberdade.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Sobre o Sol...


E então, depois de caminharem por todo aquele campo, vasto e lânguido, decidiram parar, sentar e contemplar o céu. Era a primeira vez que sentiam aquela necessidade de permanecer em silêncio, e olhar para o infinito, e de simplesmente estar ao lado um do outro, sentindo a presença sem interagir de fato. Mas interação havia...

De longe percebia-se ali, nos campos aos arredores do Circo Imaginário, que havia uma ligação, um elo, uma semelhança, talvez. Era dolorosamente inexplicável. O que aliviava era a presença um do outro...

O sol corria depressa. Como num escrito que tantas vezes repetidamente lera durante a noite, falando de todas as histórias de amor sobre a noite e o dia. E ali estavam... No sonho. Há tempos juntos, há tempos caminhando, sentados e contemplando a luz se esvaindo pelo horizonte. O frio e o negro cobrindo o mundo como um manto, mas eles não estavam muito lá interessados com aquelas sensações de temperatura (ou temperamento)!


Era estranho ficar só.


A lua já estava em seu posto; outrora inverno no País do Por do Sol, ou noite no Circo Imaginário... O lugar, realmente, tanto fazia... Tanto fazia também em que tempo estavam... Mais importante que tudo isso era que, entre o amanhecer e a alvorada, entre o pôr do sol e o surgimento da lua... Ali estavam.. Eternos amantes, eternos e amantes.

(Alguém, no fundo, como noutra vez, ria baixinho...)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Escritos de Viagem No. 2


Da criação do mundo

Um Deus sem deuses viajava vazio pelos ventos cintilantes que sussurravam um semblante de outrora. Não havia tempo ou pensamento; tudo era infinito, tudo era intenso e maleável. Nada era dito ou cantado; não havia palco, não havia estrada. Não havia chão. E então se fez o primeiro gesto orquestral, a primeira grande e divina sensação, que mais tarde seria repartido com tudo quanto fosse inventado: a Solidão.

Mas, de repente, um brilho! Que seria? Apenas uma metáfora distante, fria e cinzenta. Quase cadente; ciente da queda pungente, mas que, de longe, seria chamada de estrela. Era o resquício de uma aquarela, era uma sinfonia em movimento e, por mais que se procurasse, nada ali se conseguia alcançar. Tudo era distante, embora distância não existisse de fato, e mesmo o fato, em si, sendo latente.

Então, inobstante e distante, se fez o que não se sabia ter vindo antes ou depois do primeiro sentimento. O Desejo.

Pois o Deus sem deuses, nômade e viajante, vagou solitário pelo breu profundo de seu próprio Desejo. Já havia criado o bastante para ser divino, já havia transposto Arte a partir do Nada. Teve Medo. E num espasmo titânico, em sua loucura arquitetônica...

Criou o mundo.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Escritos de Viagem No. 1

Foi só um olhar - todo o palco foi montado. Luz no picadeiro - ela já não estava mais lá.
O quadro de cena e o quadrado mágico;
O quarto de tom.
E tudo agora era saudade...