sexta-feira, 1 de julho de 2011

Sobre o Sol...


E então, depois de caminharem por todo aquele campo, vasto e lânguido, decidiram parar, sentar e contemplar o céu. Era a primeira vez que sentiam aquela necessidade de permanecer em silêncio, e olhar para o infinito, e de simplesmente estar ao lado um do outro, sentindo a presença sem interagir de fato. Mas interação havia...

De longe percebia-se ali, nos campos aos arredores do Circo Imaginário, que havia uma ligação, um elo, uma semelhança, talvez. Era dolorosamente inexplicável. O que aliviava era a presença um do outro...

O sol corria depressa. Como num escrito que tantas vezes repetidamente lera durante a noite, falando de todas as histórias de amor sobre a noite e o dia. E ali estavam... No sonho. Há tempos juntos, há tempos caminhando, sentados e contemplando a luz se esvaindo pelo horizonte. O frio e o negro cobrindo o mundo como um manto, mas eles não estavam muito lá interessados com aquelas sensações de temperatura (ou temperamento)!


Era estranho ficar só.


A lua já estava em seu posto; outrora inverno no País do Por do Sol, ou noite no Circo Imaginário... O lugar, realmente, tanto fazia... Tanto fazia também em que tempo estavam... Mais importante que tudo isso era que, entre o amanhecer e a alvorada, entre o pôr do sol e o surgimento da lua... Ali estavam.. Eternos amantes, eternos e amantes.

(Alguém, no fundo, como noutra vez, ria baixinho...)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Escritos de Viagem No. 2


Da criação do mundo

Um Deus sem deuses viajava vazio pelos ventos cintilantes que sussurravam um semblante de outrora. Não havia tempo ou pensamento; tudo era infinito, tudo era intenso e maleável. Nada era dito ou cantado; não havia palco, não havia estrada. Não havia chão. E então se fez o primeiro gesto orquestral, a primeira grande e divina sensação, que mais tarde seria repartido com tudo quanto fosse inventado: a Solidão.

Mas, de repente, um brilho! Que seria? Apenas uma metáfora distante, fria e cinzenta. Quase cadente; ciente da queda pungente, mas que, de longe, seria chamada de estrela. Era o resquício de uma aquarela, era uma sinfonia em movimento e, por mais que se procurasse, nada ali se conseguia alcançar. Tudo era distante, embora distância não existisse de fato, e mesmo o fato, em si, sendo latente.

Então, inobstante e distante, se fez o que não se sabia ter vindo antes ou depois do primeiro sentimento. O Desejo.

Pois o Deus sem deuses, nômade e viajante, vagou solitário pelo breu profundo de seu próprio Desejo. Já havia criado o bastante para ser divino, já havia transposto Arte a partir do Nada. Teve Medo. E num espasmo titânico, em sua loucura arquitetônica...

Criou o mundo.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Escritos de Viagem No. 1

Foi só um olhar - todo o palco foi montado. Luz no picadeiro - ela já não estava mais lá.
O quadro de cena e o quadrado mágico;
O quarto de tom.
E tudo agora era saudade...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Dos Males do Ser Humano V: Da Incompletude


À noite, choveu. Choveu como há muito não se via; todos à minha volta correram para se proteger da chuva. Mas nós estávamos ali! Dançamos na chuva, andamos de mãos dadas, rodopiamos e caimos na água. Vendo que não era páreo para nós, a triste chuva se foi; e agora dançávamos na praia. Entardecia; nós esperávamos pelo pôr do sol. As ondas, calmas, como sempre; o mar não se atreveria a ficar revolto à nossa presença. Ou será que os atrevidos éramos nós? Rimos bastante. É bom às vezes para nós pensar que somos reis (afinal, realmente somos!). E que reis! Com toda nossa majestade, caímos na areia depois de muito girar em curropio, e olhamos para o céu e para as primeiras estrelas que começaram a aparecer... Azul, laranja, vermelho... O sol estava se pondo, quase tocando o mar. Se quiséssemos, ele poderia parar e ficar ali, na posição que estava, para sempre. Não dizem que nada é para sempre na vida, senão um momento? Para nós seria assim.

- Ah, pare com isso! - diz, rindo, como se realmente quisesse que a brincadeira parasse. Qual de nós disse? Não faz diferença. O desejo infatil (infantil por quê?) de chutar água no outro pertencia a nós mesmo... E ao vento. Que insistia em desarrumar nossos cabelos!

-E daí? Não tem ninguém aqui para nos ver... - Na verdade, nunca teve. Mesmo por que nunca quisemos. Assim, vivemos dia após dia, como eternos irmãos, amigos e amantes, em eternas brincadeiras, numa praia deserta, infinita como a duração do pôr do sol. Para sempre, nós. Eu e o meu sonho.