domingo, 12 de setembro de 2010

Dos Males do Ser Humano IV: O Ócio


Oi... tudo bem? Eu estava aqui pensando nas coisas da vida... Nem vi você chegar. Não tenho muita coisa pra dizer. Ultimamente tudo tem simplesmente acontecido. O tempo é longo demais. As frases, curtas. E sempre quando acordo... É estranho, porque não lembro exatamente se as coisas que me acontecem durante a noite são reais ou se fazem parte dos sonhos - ou pesadelos - que tenho enquanto não estou acordado.

Os que tenho quando não estou dormindo - mesmo os sonhos - são... muito piores.

Não sei se estou tomando seu tempo com essa conversa, mas é que não estava fazendo nada quando você chegou aqui. E, sabe... Presenciei algumas histórias que me trouxeram um sentimento meio triste. Nada a ver comigo, claro. Coisas dos outros. Ultimamente tenho sido mero expectador das coisas que acontecem ao meu redor.

No começo interessava, até. Mas depois foi ficando angustiante...

Daí vem aquela brisa que toca meus cabelos sutilmente. E já sei a cena seguinte: a chuva. E, quem sabe se ela simplesmente caísse, e eu não corresse para me abrigar? Gostaria muito de ter feito isso... Ah, você não precisa saber com quem, mas eu gostaria sim... Imagina só todas as coisas que duas pessoas podem fazer juntas! Ou uma pessoa só, num monólogo, num lugar distante... Imagina... E... É isso, acho que estou imaginando demais. E estou muito reticente com a vida, também...

A vida? Sim...
Mas com quem estou falando? Não há ninguém aqui... A estrada vazia, o céu repleto de nuvens... As estrelas estão todas cobertas hoje. As estrelas estão... Todas... Cobertas, hoje.

Vai entendê-las! Hahaha... Entendeu? É poesia, não precisa entender! Ninguém precisa... Ninguém vai sentir, também... Não o que eu sinto, que é meu, como eu, que não está à venda e nem impresso num cartaz...

Ei, amigo, espere! Perdoe este sarcasmo, é só uma ponta que não quis transformar em amargura dentro de mim. É... isso. às vezes essas coisas aparecem assim e se vão, de repente... Idiota. Era só um saco plástico voando com essa ventania de agora... O que será isso? Acho que é prenúncio do fim do mundo. Um dia vai acabar, mesmo. Bom... Mas meu cigarro já acabou. Chega disso.

(Voltou, da calçada, para junto dos outros palhaços; mais uma noite de apresentações, casa cheia. Ao longe, a menina que dançava sozinha olhou para O Circo; um oásis de iluminação dentro daquele breu que era aquele mundo de sombras e sonhos; suspirou e seguiu seu caminho).

E foi tudo tão somente uma cena...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dos Males do Ser Humano III: Indiferença


De manhã cedo... Ela acordou. A menina que dançava sozinha na noite anterior... Mas hoje ela não acordou pro Sol. Não acordou para trabalhar e nem para sua dança.

O circo estava cinza-pálido... Névoa, dia nublado.

Nuvens ou a fumaça dos palhaços que fumavam, jogavam pôquer e dormiram de tanto beber depois do espetáculo... Ou o cinza de alguém que simplesmente esqueceu de pegar a aquarela para pintar a alvorada?

Não sabia exatamente o que responder... E também nem se importava. O dia avançava e seguiam as horas... O tempo passava e era apenas mais uma piada naquele circo. O Tempo.

O Tempo ali não passava nunca...

E a menina, num passo de dança, tocou os céus e depois avistou toda aquela inútil paisagem, enquanto um anjo quebrava a casca inútil das horas (como disse o mesmo poeta que um dia citou o dançar da menina)

Alguém espirrou. O vento soprou, despreocupado. Ali no canto, o barulho de alguns copos descartáveis. Era uma garoa mesmo, ou apenas o sereno? Cinco pras seis... Ali, uma linha limite entre todo mundo que acabou de dormir e quem já estava pra acordar esperando apenas o primeiro fio de cor despontar no horizonte.

E ela ali, só. Indiferente a tudo e a todos... Desde aos meio-fios das calçadas que cercavam o circo, rodeando as ruas que não levavam pra canto nenhum... Até o canto de alguns pássaros que ali também não havia... Dançava

E contemplava a pior morte que conhecera: a morte do amor pela indiferença, e não por ele mesmo.

[... e a propósito, as flores da foto são lírios. Olhai.