
Então de súbito entrou no picadeiro. Uma leve desarrumação. Horas antes de começar...? Ou... Horas depois?
De súbito também percebeu que não estava só ali: havia o vento, e com ele música e algum sentimento distante, perdido. Caminhou pelo cenário; malabares, canhões, cordas, bolas, maquilagem... Que horas são? É preciso ir, mas... Ir para onde? O que estou fazendo aqui? O que estou fazendo realmente aqui? Talvez seja só impressão. Talvez ela nem esteja mais aqui. Não... Ou sim. É sempre uma grande dúvida, uma grande dúvida, uma grande... E isso dói. Dói. Porque é sempre algo mais, algo mais, algo mais... Seja como for. O importante é que estou aqui. Esse vento me traz música, mas... Não posso negar que me tem sufocado. Dá para imaginar? Andou de um lado para o outro. Era sempre assim quando perdia algo: uma enorme confusão que envolvia até mesmo o eu lírico.
E... O que vim mesmo fazer aqui? Ah, só um detalhe. Estava procurando alguma coisa por aqui que há tempos perdi. Mas... O que era mesmo? Grande! Maior problema é não conseguir encontrar as coisas. Muito maior do que perdê-las. Mas estamos aqui para isso, certo? Então, voltando ao ponto... Onde estava mesmo? Sim... Bem aqui, dentro de mim... Bem dentro de mim... Mas não é só saudade, não... Saudade... De quem? Parou por um momento. Notou que estava ofegante. Notou que chorava. A maquilagem estava borrando! Meu Deus... O que fazer? O que fazer... O que fazer... Sim! Sorria. Tudo não vai passar de brincadeira. Ou encenação. Encenação... Sim! Ela dançava ou atuava? Talvez os dois... Se cantasse, também, nada o envolveria mais. Não haveria melhor veneno. Ela girava, girava... E talvez fosse isso que estivesse mexendo com a sua cabeça. A cabeça... Ah, agora... Algo para apoiar-me, está tudo girando! Não... da próxima vez será diferente. Mas eu caí mesmo lá de cima? E... essa maquilagem? Quem era eu, hoje? Quem era... Ela? Tinha um sorriso tão bonito... Onde ela foi? Onde... De súbito a luz se acendeu. Aquela claridade... (sorriu) E, na contraluz, era ela! Tão clara... mas tão distante. Tão perfeita... Mas tão errada. E tão cruel... Por que você não está aqui? Porquê! Da próxima vez, me faz acreditar... Mas, acreditar... No que? Espere... preciso retocar a maquilagem. O espetáculo está para começar! Não, espere... O espetáculo já acabou há algum tempo... Será que tem muita gente lá fora? Sempre fico nervoso nas estréias! Sempre fico... Sempre...
De súbito voltou-se para as arquibancadas e viu a si mesmo, no alto, distante, aplaudindo. Não era um momento antes e nem após o espetáculo: ele acabara de acontecer...
Um comentário:
Que confuso e verdadeiro! Parece com você...
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