
À noite, choveu. Choveu como há muito não se via; todos à minha volta correram para se proteger da chuva. Mas nós estávamos ali! Dançamos na chuva, andamos de mãos dadas, rodopiamos e caimos na água. Vendo que não era páreo para nós, a triste chuva se foi; e agora dançávamos na praia. Entardecia; nós esperávamos pelo pôr do sol. As ondas, calmas, como sempre; o mar não se atreveria a ficar revolto à nossa presença. Ou será que os atrevidos éramos nós? Rimos bastante. É bom às vezes para nós pensar que somos reis (afinal, realmente somos!). E que reis! Com toda nossa majestade, caímos na areia depois de muito girar em curropio, e olhamos para o céu e para as primeiras estrelas que começaram a aparecer... Azul, laranja, vermelho... O sol estava se pondo, quase tocando o mar. Se quiséssemos, ele poderia parar e ficar ali, na posição que estava, para sempre. Não dizem que nada é para sempre na vida, senão um momento? Para nós seria assim.
- Ah, pare com isso! - diz, rindo, como se realmente quisesse que a brincadeira parasse. Qual de nós disse? Não faz diferença. O desejo infatil (infantil por quê?) de chutar água no outro pertencia a nós mesmo... E ao vento. Que insistia em desarrumar nossos cabelos!
-E daí? Não tem ninguém aqui para nos ver... - Na verdade, nunca teve. Mesmo por que nunca quisemos. Assim, vivemos dia após dia, como eternos irmãos, amigos e amantes, em eternas brincadeiras, numa praia deserta, infinita como a duração do pôr do sol. Para sempre, nós. Eu e o meu sonho.